Tarde de Junho
Por Luiza
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Capítulo 01
Em um apartamento em um prédio luxuoso a duas quadras do Hyde Park, tudo estava silencioso. Tudo estava rigorosamente organizado e não havia um único livro fora do lugar na sala. A cozinha estava impecavelmente limpa e a pia, por incrível que pareça, estava vazia. Não havia um único prato sujo. Debaixo do tanque, havia uma casa de cachorro vazia. O cachorro, Sidi, estava no quarto do seu dono, sentado no chão, olhando para a cama onde o dono dele, Andrew, dormia. Como se visse que era a hora de Andrew levantar, Sidi puxou a colcha e Andrew deu um resmungo. Sidi começou a lamber o rosto de Andrew, que acordou com as lambidas de Sidi. Andrew abriu os olhos, espreguiçou, sentou-se na cama e, suspirando, olhou para Sidi. O cachorro lhe lançou um olhar como se fosse de condenação por Andrew estar dormindo até àquela hora. Andrew percebeu logo o que Sidi queria: Comida. Ele sempre fazia aquilo quando estava com fome. Era incrível. Assim que Andrew pôs a ração no pratinho de Sidi, ele foi tomar banho e se arrumar para trabalhar. Andrew era um publicitário de sucesso e a agência onde ele trabalhava era uma das melhores do Reino Unido.
Quando ele saiu de casa, passou em uma cafeteria, onde tomou o café e comeu um pãozinho doce. Em seguida, rumou para o trabalho. Assim que ele chegou ao prédio onde funcionava a agência, ele foi até a sala do chefe, onde conversaram durante uma hora sobre um projeto de uma empresa de carros. Em seguida, Andrew viu quatro clientes. Naquela tarde, enfrentaria mais quatro. Almoçou no escritório mesmo, onde teve algumas idéias. Assim que terminou de almoçar, foi até a sala de reuniões, onde apresentou as idéias para os quatro clientes restantes. No fim do dia, quando Andrew estava exausto, ele foi para a casa. Sidi fez a maior festa. Andrew viu os recados, que incluíam uma ligação de sua irmã, lembrando-o do batizado do seu sobrinho e de sua mãe, querendo saber notícias. Ele ligou para as duas, ficou um bom tempo e, quando finalmente desligou o telefone, foi para a cama. A vida de Andrew era assim: Casa - Trabalho - Casa. Raramente sobrava algum tempo para ele sair e se divertir um pouco.
Na manhã seguinte, Andrew chegou ao trabalho e, mais uma vez, enfrentaria a rotina. Isso senão fosse a insistência dos colegas para ele ir à despedida de solteiro de um deles. Andrew, vendo que não tinha outro jeito, aceitou ir à tal da despedida. Ele já sabia o que o esperava: Muita bebida, uma mulher saindo de um bolo e o que os colegas chamavam de “diversão”. Quando Andrew saiu do trabalho e foi até a boate onde a festa de casamento aconteceria, ele começou a sentir vontade de ir embora. Ele já ia se preparar para ir para a casa quando viu uma moça na pista de dança. Ela dançava como se ela e as amigas estivessem em um quarto vazio, com um som. A moça era mais baixa que Andrew, magra, tinha os cabelos castanho-escuros. Andrew não conseguiu ver a cor dos olhos dela. A moça tinha a pele branca e Andrew pôde ver que ela tinha a boca vermelha e carnuda. Ela usava uma blusa com um decote bem generoso, minissaia e sandálias de salto.
Andrew não conseguia olhar para outra pessoa senão a moça. O que mais chamou a atenção dele para ela, era o fato de ela não se importar com as pessoas ao redor. Quando era quase meia-noite, a moça e as amigas saíram da boate e foram até a estação de metrô. Andrew, que pegava o metrô na mesma estação que elas, embarcou e procurou o vagão mais vazio. As moças entraram no vagão em que Andrew estava. Elas ficaram conversando e rindo e Andrew ficou quieto, no canto dele. Quando só Andrew e a moça que lhe chamara a atenção ficaram no vagão, ela levantou-se, foi até ele e disse:
- Posso sentar?
- Claro. - Ele respondeu. A moça perguntou:
- Qual é o seu nome?
- Andrew. E o seu?
- . Mas pode me chamar de .
Os dois começaram a conversar e, quando Bel viu que a estação em que ela deveria descer estava próxima, ela disse:
- Eu tenho que descer...
Antes de ela se levantar do assento, ela disse:
- Foi bom te conhecer...
- Igualmente. - Andrew respondeu.
- A gente se esbarra por aí. - Ela disse, antes de desembarcar. Andrew ficou sentado alguns instantes e, quando as portas iam se fechar, ele se levantou e desembarcou rapidamente. Ele procurou por , mas não a encontrou. De repente, ele a viu subindo as escadas que levavam à rua. Ele a seguiu e, de repente, quando ela desapareceu, ele a ouviu perguntar:
- Por que está me seguindo?
- Eu... Queria me despedir apropriadamente de você.
Ele sentiu alguém cutucar seu ombro e, quando ele virou-se, a moça estava atrás dele. disse:
- Se quiser me ver de novo e ainda me ajudar, pode ir até esse endereço. - Ela disse, escrevendo algo em um pedaço de papel e entregando-o para Andrew. - Quando você quiser, a partir das oito da manhã, estou nesse endereço.
- O que é esse endereço?
- Se vier, vai descobrir, não se preocupe. - disse. - Agora, boa noite. E dorme com os anjinhos. - Ela respondeu, em tom divertido.
Ele sorriu e guardou o endereço que ela lhe deu no bolso da calça.
Três semanas depois, quando Andrew chegou ao tal endereço pontualmente às oito da manhã, ele viu que se tratava de uma escola. Quando ele entrou, viu que no papel, estava escrito:
Vá até o segundo andar, depois, até o final do corredor e vire à esquerda. Terceira sala.
Andrew seguiu as instruções e, quando ele parou em frente à porta, viu que havia uma espécie de janela que dava para ver a sala de aula. Ele viu vinte crianças e, quando ele ia bater na porta, um menininho o fez. Andrew perguntou:
- A dá aula aqui?
- Dá. Quem é você?
- Um amigo dela.
- Entra aí. - O menino disse. Quando Andrew entrou na sala, viu abaixada ao lado de uma mesa, ajudando um grupo de meninas. Uma das meninas viu Andrew e disse algo à , que o olhou e sorriu. Ela disse:
- Achei que não viria...
- E perder a chance de te ver?
corou e disse:
- Quer ajudar?
- Claro. O que eu posso fazer?
- Bom, como você me contou ontem, é publicitário. E os publicitários são bastante criativos... Você podia... - Ela olhou ao redor e viu uma mesa em que os meninos estavam mexendo com tinta. Ela disse: - Me ajudar olhando aquela mesa ali.
- Tudo bem. - Andrew disse.
Enquanto ajudava as meninas, Andrew a observava. Uma ou duas vezes, os olhares deles se encontravam. Depois que apresentou Andrew aos alunos, alguns ficaram tímidos e outros nem tanto. Quando Andrew estava jogando futebol com os meninos, na quadra da escola, depois de um gol de Andrew, os meninos do time dele reuniram-se ao redor de Andrew. Depois do jogo, quando Andrew terminou de contar uma história para eles, as crianças dormiram um pouco. disse, enquanto eles observavam as crianças:
- Você é ótimo com crianças...
- Sério? Geralmente elas não gostam muito de mim...
- Verdade?
- É. Acho que elas devem pensar que eu sou sério demais.
- Eu não achei. Nunca vi eles se divertirem tanto... Isso sem mencionar que eles são uns pestinhas quando só eu estou aqui.
Andrew sorriu, imaginando atrapalhada e tentando controlar dez ao mesmo tempo. Ela percebeu e perguntou:
- O que foi?
- Nada. - Ele disse.
Ela o olhou, desconfiada. O olhar dos dois se encontrou novamente e o silêncio reinou. sentia-se um pouco constrangida, por causa dos alunos. Andrew começou a aproximar-se dela, mas disse:
- Acho melhor não. Vai que um deles acorda, nos vê e conta para a mãe? Seria uma confusão enorme.
- Tudo bem. - Andrew respondeu.
Depois da aula, Andrew ajudou a arrumar a bagunça que as crianças fizeram. De repente, começou a chover e disse, olhando pela janela:
- Que ótimo!
- O que foi?
- Está chovendo.
- E...?
- Não vai dar para pegar o metrô com essa chuva...
- Quer carona?
Ela olhou para Andrew e respondeu:
- Não vai te desviar muito do seu caminho?
- Não. E se desviasse, não tinha problema.
- Tem certeza?
- Absoluta. - Ele respondeu.
- Bom... Então eu aceito a carona. - Ela disse.
Durante o caminho de volta, Andrew e conversaram todo o caminho até a casa dela. Assim que ele parou o carro, olhou discretamente para a casa de . Ficava em Notting Hill e parecia uma casinha de bonecas; A casa era cor-de-rosa, as beiradas das janelas e a porta eram brancas. disse, ao perceber que Andrew olhava para a sua casa:
- Eu sei o que você deve estar pensando...
- O quê? - Ele perguntou, fazendo cara de suspense.
- “Isso é a casa da Barbie?”
- Na realidade, eu estava pensando em outra coisa.
- No quê?
- Que você tem bom gosto.
Ela sorriu. perguntou:
- Quer entrar um pouco? Te garanto que dentro é bem diferente do lado de fora.
Ele pareceu avaliar a proposta e admitiu para si mesmo que era irresistivelmente tentadora. Por fim, acabou aceitando o convite. Logo na entrada, ao lado da porta, havia várias fotos de , desde quando era pequena, até hoje em dia. Andrew observou uma foto em especial, que ela estava sozinha. Ela disse:
- Nesse dia eu não estava muito bem.
- O que houve?
- Eu perdi um amigo. Ele acabou se envolvendo em um acidente de carro e não resistiu.
- Eu sinto muito. - Ele respondeu, sensibilizado.
- Tudo bem. Bom, o que vai querer beber?
- Água está bom.
- Fique à vontade.
No instante seguinte, e Andrew estavam sentados no chão, em frente à um som daqueles bem antigos, olhando os vinis que tinha. Dentre o grupo de amigas que estavam na boate naquele dia, havia uma brasileira, que havia dado alguns vinis para . Entre eles, havia Tom Jobim, Secos e Molhados e Mutantes. Quando Andrew pegou um dos discos dos Secos e Molhados, disse:
- Tem uma música deles, que, pelo o que a minha amiga me explicou, é muito engraçada. É algo tipo: “Bailam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas. E lá no fundo azul na noite da floresta, a lua iluminou a dança, a roda, a festa. Vira, vira, vira, vira, vira, vira homem, vira, vira, vira, vira, lobisomem, Vira, vira, vira, vira, vira, vira homem, vira, vira”. - Ela tentou cantar em português, mas se atrapalhou toda. De repente, o olhar dos dois se encontrou e aquele silêncio incômodo reinou. Quando Andrew ia beijar , o telefone dela tocou. A moça disse:
- Só um instante...
Enquanto atendia ao telefone, Andrew olhava alguns discos. Assim que ela voltou, ele estava olhando os CDs dela. Ele havia colocado todos os vinis dela no lugar e o observava, divertida. Ele virou-se e disse:
- É incrível que uma moça de vinte e três anos goste de tantas bandas antigas.
- E isso é bom ou ruim?
- É ótimo.
- Que bom... - disse.
- Eu estava vendo os seus CDs e me lembrando do dia em que eu te conheci.
Ela fez uma expressão entre diversão e curiosidade. Andrew continuou:
- O caso é que eu vi você dançando. E você parecia não se importar com absolutamente nada e nem ninguém ao seu redor.
- E...?
- Desde aquele instante, não consigo te tirar da minha cabeça.
- Só por que você me viu dançando?
- Na realidade, eu gostei do fato de você não estar se importando com ninguém.
Ela ficou em silêncio, só olhando para ele. Essa era a quarta vez que eles se encontravam em três semanas. A primeira foi quando eles se conheceram. A segunda e a terceira foram, coincidentemente, no metrô. Como o carro dele estivera na oficina, então ele tivera que pegar metrô naquela semana em que encontrara duas vezes. Ela foi até ele e, como se quisesse desviar do assunto, ela perguntou, indicando com o queixo, o porta CDs em formato de guitarra:
- Teve alguma coisa aí que te apeteceu?
- Teve.
- O quê?
- A dona deles. - Andrew disse. olhou para ele, surpresa. Não estava surpresa pelo que Andrew lhe dissera, mas sim, por que descobrira que estava gostando de Andrew. Ele começou a aproximar-se dela. Desta vez, ele a beijou. Há tempos que Andrew queria fazer isso, mas, como deu para perceber, não conseguira.
Continua...